The eyes of a Mermaid: Memórias de Havana, 2016 | Bobby Pins

Memórias de Havana, 2016 | Bobby Pins

As horas anunciavam o final de tarde, mas o Sol demorou a presentear-nos com os raios de luz dourados. Pouco tempo antes, o céu ameaçou um aguaceiro tropical e toda a cidade ficou com uma luz muito clara e umas nuvens carregadas. Não passou disso, uma ameaça, e embora estivesse um calor e humidade insuportáveis, a chuvada de Trinidad tinha-me posto em sentido; não queria ficar encharcada outra vez, com as sapatilhas a fazer de barcos, protegendo a mochila.

Seis da tarde, em Havana.

Ainda tinha o gosto da limonada que pedi, em Bodeguita, na boca e as pernas começavam a acusar cansaço depois da caminhada por Malecón. Estávamos a voltar ao centro, precisávamos de um lugar para jantar, mas o regresso era feito sem pressas. Queríamos desfrutar de tudo e absorver o que a vista conseguisse alcançar. O guia ensinava-me truques para tirar fotografias com o iPhone, truques que já conhecia e executava há anos mas que educadamente ouvi e agradeci, só pela cortesia que teve de querer ser útil com a turista.

As ruas combinavam com o meu vestido vermelho. Umas vezes havia passeio, noutras uma terra batida que fazia imenso barulho a andar. Cada fachada mais deslumbrante que a outra, mais colorida, mais histórica. Não conseguia conter a minha curiosidade e espreitava sempre discretamente para a janela. Raramente tinham vidros ou cortinas, mas um gradeamento. No interior, as famílias juntavam-se a ver televisão, as mulheres pintavam as unhas umas às outras e conversavam a uma velocidade impossível de acompanhar. Os homens fumavam cigarros e jogavam dominó, com gargalhadas altas e olhos cerrados de risos com gosto.



As praças estavam cheias. De música e pessoas. Os ritmos quentes como o clima, animados como os locais. Já conhecia alguns refrões e não conseguia conter-me e trauteá-los. Nas partes animadas, todos erguiam os seus copos com as mais distintas bebidas. 
Crianças patinavam e jogavam à bola juntas, em grupos. Algumas descalças, outras de chinelos, alguns corajosos de sapatilhas. Os pais deixavam música pop americana tocar nas colunas portáteis. Era uma revelação, para mim. Um sinal da mudança. Um simples gesto como ouvir Katy Perry na capital de Cuba.

Os mais velhos dormiam. Talvez já estivessem a pagar as dívidas de viverem num lugar que se traduz em festa, em música, em bebidas que fazem a garganta arder e charutos. Todos repousavam, alguns audaciosos deitavam-se, sem a menor vontade de serem perturbados.

Era um cenário que nunca tinha visto. Não assim. Não com aquela vivacidade e espontaneidade. Havana pulsava.

Os carros passavam, sempre com pressa e de todas as cores e feitios. A maior parte deles descapotáveis, com casais no interior. A máquina do tempo actuava, nas estradas. Parecia impossível estar em 2016, com tamanhas antiguidades a galgar o alcatrão, com a música do rádio no máximo e o taxista a cantar em cana rachada, ignorando se os seus passageiros aprovariam ou não o concerto.

Apanhei o cabelo num rabo de cavalo e dei-me por vencida com o calor. Começava a escurecer e alguns edifícios partilhavam as primeiras luzes da cidade. Nem todos tinham luz - a maior parte eram prédios abandonados - e mesmo alguns andares de prédios habitados não eram inundados com um clarão amarelo. Os postes de iluminação eram maus e senti-me quase rodeada de escuridão. Mas olhava para as praças luminosas e via as pessoas agrupadas em festa. No pasa nada. 

Acabámos por escolher um restaurante que se situava num prédio, no segundo andar. Prometia comida cubana e música ao vivo. Este último conseguíamos comprovar já no rés-do-chão, de onde se ouviam os artistas animados e estridentes, o som dos talheres a bater nos pratos, de grupos a brindar e de mulheres a gritar os pedidos. A luz era baixa e tornava o prédio convidativo e acolhedor. Vencidos pelo cansaço e pela fome, entrámos. Eu olhei para trás, uma última vez, para a cidade. Terminando o jantar, regressaríamos ao carro, numa longa viagem, rumo a Varadero. Não podíamos perder tempo com despedidas, portanto, foi ali que fiquei, na fachada, a olhar para a alegria. Estas pessoas tinham tanto ou menos que eu, mas faziam felicidade com tudo. Não conseguia parar de admirar o que me rodeava. As pessoas conversavam e interagiam. Algumas tinham telemóvel, mas nem ligavam. As miúdas riam em grupo, com roupas a combinar, os rapazes brindavam, com as suas bicicletas. Algumas pessoas caminhavam sós, com sacos gigantes e o cansaço na vista. Desejavam regressar a casa. A escuridão da cidade, pouco provida de postes, era cortada com as luzes das casas, amareladas. Sorri por dentro, para mim. Havana era tão diferente de mim e apaixonava-me tanto. Os ritmos, o calor, as pessoas e a própria filosofia da cidade abraçavam-me e sussurravam que iriam ter saudades minhas, num espanhol corrido e arrastado. Eu também iria sentir. Mas voltei as costas e subi as escadas sem olhar para trás, tal e qual um Don Juan que deixa a amada pendurada à porta, sem promessas de regressar tão cedo.

Inês Mota, Bobby Pins

7 comentários:

  1. Great post!
    Kisses,
    https://kika--maria.blogspot.com/

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  2. uau!!

    https://quase-italiana.blogspot.pt/

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  3. Adorei o post! xx

    www.flu-ffy.blogspot.pt

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  4. Adorava nuito visitar parece tão linda pelas tuas minis descrições!
    Já agora adorei o look!
    Beijinhos//Jéssica http://damselme.blogspot.pt/

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  5. Adorei o outfit! Gostava tanto de visitar Havana, deve ser tão lindo visto ao vivo :)

    https://filipa-goncalves.blogspot.pt/

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