Lembro-me,
desde sempre, de desejar muito que os outros me vissem, me lessem, me
gostassem. Lembro-me da intensidade desse pensamento e do quanto pouco disso
era egocentrismo ou necessidade desesperada de atenção. Aliás, nunca gostei que
o foco de luz apontasse para mim ou de falar para grandes multidões mas o
particular e engraçado até na minha personalidade é que ela é sempre dicotómica:
não quero ser o centro mas quero que me vejam como alguém importante, que
quando fala não fala para dizer, fala para contar, explicar, fazer rir. Foi
sempre assim que quis que eles me vissem. Em eles entendam amigos,
porque é para eles que cresço, foi com eles que quis crescer também. Lembro-me
de desejar que eles me vissem, nas minhas imperfeições, mas mais nas minhas belezas
interiores. Sempre esperei que isso não desvanecesse com o passar do tempo
porque quero que eles mantenham uma ideia de mim que não é a minha mas acredito
que seja melhor.
"I wish someone would
randomly tell me little facts about myself. Not ones that I have already told
them but ones they have picked up by themselves because they care enought to
notice the little things I do."
Li isto ainda ontem e
inspirou-me, de imediato, para fugir ao tema que tinha pensado abordar e escrever
sobre uma outra coisa, de outras coisas, das pequenas coisas que detetamos nos
outros, as belezas interiores que se traduzem por gestos, jeitos de falar e
tiques engraçados. Lembro-me, desde sempre, de desejar muito que eles as
vissem, que eles me dissessem quem sou eu, que tique estranho teria eu e que
gargalhada minha os faria rir de imediato. Eles foram-me dizendo algumas dessas
coisas, é claro que nem sempre muito diretamente. É à conta
deles que hoje sei que sou uma pessoa delicada, que mantenho
sempre uma postura invejável e que tenho cuidado com o que digo,
que penso sempre muito nas coisas antes de as expôr a quem quer
que seja. Eles sabem-me party animal mas
também tímida. Sabem-me sincera mas contraditória naquilo que sinto e digo.
Foi a pensar nisto que eu
comecei a questionar como é que eu própria lhes dedicava os seus
gestos, jeitos e tiques. E descobri. Descobri que o fazia através das
imagens que captava deles. Aliás, descobri que eles próprios se descobriam
através das minhas fotografias.
E é por tudo isto que
decidi trazer aqui, em jeito de conclusão, algumas imagens deles, nas quais
residem bocados do carácter de cada um, não fosse isto um texto meu.
Confesso que pensei em escrever um texto fora do meu habitat,
abordar temas que correm as bocas do mundo ou então falar-vos de alguém
importante. Porém, cheguei à conclusão de que este texto deveria não só
representar-me a mim como àquilo que o VIVUS representa hoje para mim: um
espaço para falar do que sinto, partilhar o que me move, quem e porquê. Um
espaço íntimo, de mim para mim. Um lugar no meio de toda a catrafulhada de
coisas que é a Internet que vos faça sentir vocês próprios, onde possam
encontrar paz de leitura e espaço para pensarem, sonharem e se identificarem
com alguém que escreve sobre aquilo que vive do outro lado.
To the fools who live
through words, welcome to my place. If you feel welcome, it means you’re alive.
Inês Vivas, Vivus
